Você entra em uma sala de aula comum. Carteiras arrumadas, professor e alunos atentos. Tudo parece normal, mas tem algo curioso: o professor não sabe o nome verdadeiro de muitos alunos. E isso não é desorganização, é questão de segurança nacional!
Esse cenário acontece em uma universidade na França, conhecida como “universidade de espiões”. Ao contrário do que vemos nos filmes, não há explosões nem drinks sofisticados. Os perigos por lá são bem mais discretos e silenciosos.
Onde fica essa “universidade de espiões”?
Imagine um lugar que parece saído de um filme de suspense europeu. Prédios antigos, imponentes e um clima discreto envolvem o campus da Sciences Po Saint-Germain-en-Laye, nos arredores de Paris. Ao contrário do que o nome pode sugerir, um dos cursos mais importantes é o Diploma em Inteligência e Ameaças Globais. Essa é uma parceria entre a universidade e a Academia de Inteligência da França, com o objetivo de formar futuros espiões e aperfeiçoar aqueles que já estão na ativa.
Por que esse curso foi criado?
O curso surgiu em um período de tensão. Após os atentados de 2015 em Paris, o governo francês sentiu a necessidade de melhorar seus serviços de inteligência. Daí veio a ideia de um curso que unisse teoria acadêmica e a prática da espionagem. O resultado foi um programa que mistura universitários comuns com agentes secretos mais experientes, muitos deles com cerca de 40 ou 50 anos.
Quando o professor não sabe quem você é
O professor Xavier Crettiez, responsável por uma das disciplinas, faz algo incomum. Ele revela que raramente sabe quem são verdadeiramente os agentes de inteligência em sua sala de aula. Não faz perguntas sobre isso e, para garantir a segurança, os espiões se identificam apenas com o primeiro nome. Eles evitam fotos e costumam se sentar longe dos alunos mais jovens. Em algumas fotos oficiais, podem ser vistos de costas, tentando passar despercebidos.
O que se aprende em uma sala dessas?
O curso é bem diferente do que se costuma ver nas produções de Hollywood. Ao invés de cenas de ação, os alunos estudam assuntos bem sérios e estratégicos, como:
- Combate ao terrorismo;
- Jihadismo islâmico;
- Crimes financeiros e lavagem de dinheiro;
- Espionagem corporativa;
- Dependência excessiva de tecnologia.
Com uma carga total de 120 horas, o curso dura quatro meses e custa cerca de 5 mil euros para os alunos externos.
Nem todo espião trabalha com terrorismo
É interessante notar que o trabalho de inteligência vai além de lidar com ações terroristas. Por exemplo, há a Tracfin, agência francesa que investiga lavagem de dinheiro e outros crimes. No sul da França, onde o tráfico de drogas é grande, o crime nem sempre é armado. Muitas vezes, o criminoso está de terno.
Quem são os alunos “comuns”?
Entre os estudantes mais jovens está Alexandre Hubert, de 21 anos. Ele entrou no curso para entender melhor a disputa econômica entre a Europa e a China. Para ele, o foco não é o glamour. É uma questão de análise de riscos.
Valentine Guillot, também de 21 anos, se inspirou na série francesa Le Bureau des Légendes. Ela considera ter acesso a esse mundo uma oportunidade única e quer ingressar nos serviços de segurança.
Empresas privadas também estão de olho
Não são apenas as agências de inteligência que estão interessadas nesse diploma. Empresas como Thales e Orange, além do grupo de luxo LVMH, que comanda a Louis Vuitton e a Dior, estão contratando formandos. Espionagem industrial, ataques cibernéticos e sabotagens tornaram-se ameaças reais nos negócios.
Quem pode se inscrever?
Um ponto importante é que apenas pessoas com cidadania francesa podem se inscrever. Em alguns casos, a dupla cidadania é aceita, mas o processo seletivo é bem rigoroso. O professor Crettiez comenta que candidatas estrangeiras que parecem “perfeitas demais” levantam suspeitas. Muitas vezes, currículos de mulheres russas ou israelenses atraentes acabam sendo descartados imediatamente.
E nada de glamour exagerado
Apesar do fascínio pela vida de espião, o professor esclarece que a maioria dos espiões não trabalha em campo. O que ocorre na prática é que a maior parte do trabalho acontece em escritórios, analisando dados, rastros financeiros e informações estratégicas. Assim, o curso mostra que a espionagem moderna tem mais a ver com a coleta de informações do que com um estilo de vida de ação.
Finalizando
Talvez o ponto mais curioso é que, em uma sala cheia de futuros espiões, o maior segredo não está nos livros. Ele está sentado bem ao seu lado, e ninguém sabe quem é. Essa realidade intrigante sobre a vida estudantil em uma “universidade de espiões” revela o quanto a segurança e a vigilância tornaram-se fundamentais nos dias de hoje.
O mundo da espionagem é complexos, cheio de superstições mas, ao mesmo tempo, extremamente pragmático. Sem glamour e com um foco intenso em análise e informação. Essa é a nova face da inteligência moderna que se forma nas salas da Sciences Po.
