O artigo anterior discutiu problemas éticos entre psicólogos registrados. Mas há um campo onde a vulnerabilidade do público é ainda maior: as práticas terapêuticas não regulamentadas.
Práticas como constelação familiar, barras de Access, thetahealing, programação neurolinguística, hipnose ericksoniana, biomagnetismo e coaching estão em alta. Essas abordagens, quando conduzidas por profissionais qualificados e éticos, podem ser boas aliadas no autoconhecimento.
O problema surge quando, pela falta de regulamentação, aparecem promessas excessivas e pessoas vulneráveis buscando apoio para questões graves de saúde mental.
### O que significa não ser regulamentado
Quando uma profissão não é regulamentada, não há fiscalização, formação obrigatória ou código de ética. Não existe um canal formal para denúncias quando algo dá errado.
Qualquer um pode fazer um curso de 40 horas online, obter um certificado e começar a atender em seguida, sem comprovar prática supervisionada ou passar por avaliações. Já na psicologia, a formação é rigorosa: cinco anos de graduação, estágios, especializações e registro no CRP. Mesmo assim, há casos de conduta inadequada.
### Não é sobre invalidar as práticas
É importante esclarecer que este texto não pretende desmerecer as práticas complementares. Existem profissionais sérios que usam constelação familiar, PNL, hipnose e outras metodologias de maneira responsável, sempre deixando claro que são complementos, não substitutos de terapias psicológicas ou psiquiátricas.
Esses profissionais têm formação sólida na área de origem e investem tempo em cursos reconhecidos. Eles sabem quando um caso está além de sua capacidade de atuação.
O problema não está nas técnicas, mas na forma como são vendidas e utilizadas por pessoas sem preparação adequada.
### O que tem acontecido
Nos últimos anos, surgiram padrões preocupantes nas redes sociais e em relatos de quem buscou essas práticas. Profissionais atendendo casos graves, como depressão e transtornos de ansiedade, sem formação adequada para reconhecer ou encaminhar esses pacientes.
Además, há práticas vendidas como cura imediata para traumas complexos em poucas sessões, o que qualquer psicólogo sério reconhece como impossível. Espalham culpas quando os resultados não aparecem, como afirmar que a pessoa não se entregou o suficiente.
Outras consequências incluem a criação de dependência emocional e financeira, com pacotes caros e promessas amplas, além da falta de contraindicações. Parece que tudo serve para todos, sem avaliação individual.
### Relatos que não têm para onde ir
Uma mulher com histórico de abuso na infância fez uma sessão de constelação. O facilitador, sem formação em trauma, a fez relembrar a cena de forma intensa, levando a uma crise. Não houve acompanhamento após a sessão. Ao tentar conversar sobre o ocorrido, ouviu que era parte do processo. Onde poderia ter denunciado?
Um homem com transtorno bipolar procurou um coach que prometeu soluções financeiras. Durante um episódio maníaco, tomou decisões ruins e foi identificado só depois, quando a família o levou ao psiquiatra. O coach não soube identificar os sinais. Onde a família poderia se queixar?
Uma jovem com depressão severa passou meses fazendo thetahealing. A terapeuta disse que ela não precisava de remédios, segurando que a cura viria com o trabalho nas crenças. O quadro piorou e ela tentou suicídio. Onde poderia ter denunciado isso?
Esses são relatos reais, compartilhados em grupos de apoio e comentários. O comum entre eles é a falta de um canal formal para recorrer.
### A diferença entre complementar e alternativo
Há uma confusão perigosa nessas nomenclaturas. “Terapia alternativa” dá a entender que pode substituir tratamentos convencionais. Já “terapia complementar” deixa claro que essas práticas devem atuar em conjunto, e não em lugar de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Profissionais responsáveis fazem questão de esclarecer essa diferença e realizam triagens cuidadosas. Perguntam sobre terapias anteriores, medicações e diagnósticos prévios, evitando casos que não possam atender.
Por outro lado, profissionais irresponsáveis tratam suas práticas como soluções únicas, criticando abertamente tratamentos psiquiátricos e prometendo curas rápidas.
### O risco da promessa fácil
Quem está enfrentando sofrimento psicológico é muito vulnerável. Quando se lidam com depressão, busca-se uma solução rápida e definitiva. “Em uma sessão você vai ressignificar este trauma” ou “três encontros e você estará livre da ansiedade” podem parecer promessas sedutoras.
Entretanto, essas promessas não só são enganosas, mas também perigosas. Elas fazem as pessoas abandonarem tratamentos eficazes, criando uma nova frustração quando as soluções não aparecem. Muitas vezes, a culpa recai sobre a pessoa, que acaba se sentindo ainda mais fragilizada.
### O que falta
Tem espaço legítimo para práticas complementares na saúde mental, mas isso deve vir com responsabilidade.
Falta formação adequada. Cursos rápidos não capacitam ninguém para lidar com sofrimento psíquico. A formação deverá incluir centenas de horas de estudo, prática supervisionada e noções de psicopatologia.
Igualmente, falta o reconhecimento de limites. Nenhuma prática, por melhor que seja, serve para todos. É fundamental haver humildade para reconhecer quando um caso precisa de outro tipo de assistência.
A falta de um código de ética claro é um grande obstáculo. Mesmo sem regulamentação, associações poderiam estabelecer diretrizes e afastar quem não as segue.
A transparência também é vital. Profissionais devem informar sobre sua formação, limitações, riscos de suas práticas e que isso não substitui tratamentos em saúde mental quando necessário.
Por fim, um canal para denúncias é essencial. Enquanto não houver regulamentação, associações poderiam criar canais para investigar más condutas.
### O que quem busca essas práticas pode fazer
Se você está pensando em iniciar uma prática complementar, há algumas dicas que podem ajudar:
– Pesquise sobre a formação do profissional. Onde ele estudou? Quanto tempo durou a formação? Tem supervisão? É da área de saúde?
– Desconfie de promessas exageradas. Se a cura é garantida em pouco tempo, pode ser uma ilusão.
– Nunca abandone tratamentos convencionais. Práticas complementares devem ser aliadas, não trocas.
– Preste atenção na postura do profissional. Ele admite suas limitações? Sugere outros especialistas quando necessário?
– Fique atento a sinais de alerta, como culpabilização, dependência emocional e promessas mágicas.
– Se algo não sair como esperado, documente. Avaliações públicas ou busca de reparação judicial são alternativas.
### Para quem pratica
Se você atua em alguma modalidade complementar, reflita sobre:
– Tem clareza sobre suas limitações? Sabe identificar quando um caso precisa de um profissional da saúde?
– Deixa claro que seu trabalho é complementar? Não substitui o acompanhamento psicológico?
– Faz promessas realistas?
– Está em constante atualização e supervisão?
– Assume responsabilidade quando uma abordagem não funciona ou culpa o atendido?
Essas reflexões dependem da honestidade do profissional. A ausência de fiscalização é um risco. Por isso, a ética individual é fundamental.
### A conversa necessária
O crescimento das práticas complementares segue uma demanda real: as pessoas buscam alternativas, pois os caminhos tradicionais nem sempre são acessíveis ou satisfatórios. A terapia é cara e demora, e os serviços de saúde pública enfrentam dificuldades.
Trocar um sistema imperfeito por outro sem regulamentação não é o caminho. Porém, práticas complementares precisam existir de maneira séria e ética. Isso depende de um critério maior do público e dos profissionais do setor.
Talvez seja hora de os profissionais se organizarem, estipularem códigos éticos e criarem mecanismos de controle. Isso evitará futuras tragédias e protegerá os mais vulneráveis. Sem essa estrutura, a zona cinzenta permanecerá, deixando muitas pessoas sem saber em quem confiar.
