Escrita diária por 2 semanas pode aliviar sintomas de depressão
Estudo americano com jovens adultos mostra que registrar experiências pessoais em texto trouxe melhora que durou até dois meses
Escrita diária por 2 semanas pode aliviar sintomas de depressão
Um estudo publicado no periódico científico Journal of Consulting and Clinical Psychology indica que escrever diariamente sobre experiências pessoais durante duas semanas pode reduzir sintomas de depressão em jovens adultos. Segundo a reportagem do Tribuna de Minas, os efeitos observados na pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, se mantiveram por até dois meses após o fim da prática.
A pesquisa acompanhou 112 voluntários de 18 a 29 anos que apresentavam sintomas moderados a graves de depressão. Os participantes foram divididos em dois grupos: um escrevia sobre o cotidiano, sem aprofundamento reflexivo, enquanto o outro respondia a perguntas voltadas a estimular a reflexão sobre identidade, valores e trajetória de vida.
De acordo com o levantamento citado pelo Tribuna de Minas, os dois grupos apresentaram melhora nas duas primeiras semanas. Porém, apenas quem fez a reflexão mais profunda sobre a própria história manteve os benefícios ao longo do tempo. Os pesquisadores associaram esse resultado a uma redução no que chamaram de sensação de desconexão entre passado, presente e futuro, fenômeno descrito no estudo como "descarrilamento".
Como funcionou a escrita reflexiva no estudo
Os voluntários do grupo com maior benefício eram orientados a escrever sobre lembranças marcantes da infância, sobre motivações e valores que definem quem são hoje e sobre como o próprio exercício de manter o diário influenciava sua percepção de rumo de vida.
Christopher Jeffrey Davis, doutorando em psicologia e primeiro autor do artigo, explicou à Agência Einstein, conforme reproduzido pelo Tribuna de Minas, que pessoas com depressão costumam relatar dificuldade de se conectar com sua própria narrativa. Segundo ele, ao revisitar experiências relevantes e relacioná-las a objetivos presentes, os participantes ganharam mais resiliência diante das dificuldades.
O psiquiatra Daniel Oliva, coordenador médico do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Hospital Israelita Albert Einstein, avaliou que construir uma narrativa sobre si mesmo funciona como fator de proteção. "Construir uma história, uma narrativa sobre si, é um fator protetor por fortalecer nossos valores e nossa percepção de identidade", disse o médico ao Tribuna de Minas.
Escrita não substitui tratamento profissional
Apesar dos resultados considerados positivos pelos autores, o estudo não propõe a escrita terapêutica como substituta de tratamento médico ou psicológico para depressão. Davis reforçou que o diferencial observado na pesquisa esteve nas orientações estruturadas recebidas pelos participantes durante o processo, o que sugere que a prática funciona melhor como complemento ao acompanhamento profissional, e não como alternativa isolada.
O pesquisador também destacou que a escolha por analisar adultos jovens se deu porque essa faixa etária costuma enfrentar mais barreiras financeiras e de acesso a atendimento especializado, o que tornaria a escrita uma estratégia de baixo custo a ser testada. Ainda assim, ele pontuou que os resultados sugerem possibilidade de benefício em outras idades, embora isso dependa de novas pesquisas.
Oliva acrescentou que o tratamento em saúde mental deve ser multidisciplinar, já que os transtornos têm origem multifatorial. Segundo ele, eventos como aposentadoria, mudança de emprego ou divórcio podem motivar a necessidade de reorganizar experiências passadas e planos futuros, e esse processo de reflexão, quando conduzido em contexto terapêutico adequado, tende a ser positivo.
Riscos possíveis e outros hábitos com efeito parecido
O psiquiatra alertou que a prática de escrita reflexiva não é isenta de riscos em determinados contextos. Pessoas em quadro depressivo ativo e sem acompanhamento adequado podem revisitar lembranças sob viés de autocrítica intensa, o que pode ampliar o sofrimento em vez de reduzi-lo.
Segundo a reportagem, atividades como prática esportiva, estudo e psicoterapia também podem produzir benefícios semelhantes aos observados com a escrita. A recomendação dos especialistas consultados é que qualquer intervenção desse tipo seja pensada dentro de um acompanhamento terapêutico apropriado, e não como iniciativa isolada de autotratamento.
O que fazer com essa informação
O estudo não permite concluir que escrever sozinho, sem orientação, produza os mesmos efeitos relatados na pesquisa, já que o benefício mais duradouro esteve ligado à reflexão estruturada sobre identidade e trajetória, não à escrita livre sobre o dia a dia. Também não há indicação de que a prática substitua diagnóstico ou tratamento formal de depressão.
Para quem convive com sintomas depressivos, a orientação dos especialistas citados é buscar avaliação profissional antes de adotar qualquer prática como estratégia terapêutica, inclusive a escrita. Em caso de necessidade de apoio imediato, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, além de chat e e-mail, em qualquer horário.


