Nolan erra ao interpretar a ‘Odisseia
Martim Vasques da Cunha, doutor em ética e filosofia política pela USP, afirma que Christopher Nolan “se vendeu” para o analfabetismo funcional ao dirigir a versão cinematográfica de “A Odisseia”. Para o autor, o filme é um “desastre completo” que falha tanto no aspecto técnico quanto na profundidade exigida pela obra de Homero.
Na avaliação do crítico, a montagem é canhestra, a fotografia é sem cor ou brilho e a trilha sonora soa automática. As atuações também são criticadas: Matt Damon não convence como Odisseu, Anne Hathaway faz “caras e bocas” como Penélope, e John Leguizamo, no papel de Eumeu, não se desvincula de seu personagem em “O Pagamento Final”.
A escalação de Elliot Page como Aquiles e Lupita Nyong’o como Helena de Troia, que teria sido imposta pelo “Departamento de Diversidade, Igualdade e Inclusão” de Hollywood, também falhou, segundo a resenha. Para completar, Page não interpreta Aquiles, mas Sinon, personagem que existe apenas na “Eneida”, de Virgílio.
O texto argumenta que a direção de Nolan parece a de um estreante, sem mise-en-scène ou “blocking”, e que o cineasta se agarrou à obsessão por filmar tudo em câmera Imax. Para Cunha, o problema vai além da superfície e indica uma “extinção da memória”.
O autor defende que Homero é o símbolo do repositório dessa memória, guardando uma meditação sobre as virtudes humanas. “A Odisseia” seria um drama sobre a reconciliação entre homens e divindades, articulado na história de Odisseu. A interferência de Nolan nessa tradição, sem a ousadia e coragem necessárias, é apontada como um erro grave.
Segundo a análise, o filme embaralha a trama propositalmente. Penélope insinua querer ser rainha no lugar do marido, Telêmaco perde a nobreza da juventude e Atena é retratada como manifestação de estresse pós-traumático. A crítica sustenta que Nolan substitui uma lembrança por outra, e que a juventude futura conhecerá Homero por meio deste filme, perdendo a noção de hierarquia e maravilhamento.
O crítico conclui que a “odisseia” de Nolan é um naufrágio artístico, pois ele não quis entender o centro secreto que coordena a tradição homérica. Ao contribuir para o fim da memória de uma cultura, o diretor se torna parte do problema que tenta diagnosticar, preocupando-se mais com o mecanismo das histórias do que com o espírito que as fundamenta.